Colocando os pingos nos “ is”

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Alguns anos atrás a chamada de destaque de um programa televisivo semanal despertou minha atenção. Ela se referia a um pastor evangélico que, com base em sua leitura do Antigo Testamento, ensinava que ele teria o “direito biblico” de adulterar com irmãs de sua igreja. Como resultado deste ensino, alguns esposos consentiram que suas esposas mantivessem relações íntimas com o referido pastor. Na matéria o repórter vai até o pastor e o indaga sobre a suposta base bíblica deste ensino inusitado.O pastor, com voz altiva, desafiou o reporter e, “a qualquer um”, a provar, “biblicamente”, que seu ensino, com base em Oseias 1:2  estava errado. O texto  bíblico citado diz o seguinte:  “Quando o SENHOR começou a falar por meio de Oséias, disse-lhe: “Vá, tome uma mulher adúltera e filhos da infidelidade, porque a nação é culpada do mais vergonhoso adultério por afastar-se do SENHOR”.

O repórter, de Bíblia aberta, pede então ao pastor que fizesse uma leitura do texto, em voz alta. Durante a leitura o repórter percebe que o pastor estava lendo da seguinte forma: “Vá, tome uma mulher, adultera”. O pastor, além de ter problema com as vírgulas, não sabia reconhecer o acento agudo e portanto lia adultera ao invés de adúltera. Ao ser confrontado com o seu erro, o pastor ficou por uns instantes mudo e em seguida, mudando o tom de voz, agradeceu ao repórter por sua ajuda, afirmando que o mesmo havia sido instrumento de Deus para lhe advertir daquele erro. Pensei comigo, eu não desejaria estar na pele daquele pastor no momento em que fosse admitir este erro para sua comunidade.

Se nos centros de formação teológica o esforço é para que se maneje de forma adequada a exegese nas línguas originais, a realidade do crescimento evangélico brasileiro nos coloca diante desta situação onde o primeiro obstáculo é o analfabestismo funcional de pastores e líderes. Sidney Greidanus, renomado professor de pregação bíblica, apresenta como razões para a falta de pregação a partir do Antigo Testamento[1], uma lista de dificuldades, histórico-culturais, teológicas, éticas e práticas, no entanto ele parte do pressuposto de que as pessoas sabem ler. Sua lista não chega a conceber uma dificuldade ainda mais básica; o analfabestismo daqueles que reconhecem as letras do alfabeto mas não sabem ler.

Não podemos delimitar este problema do uso inadequado da Bíblia aos segmentos mais populares da Igreja Evangélica brasileira. Mesmo em setores mais privilegiados é possível identificar alguns equívocos na forma como se lida com a Bíblia. Alguns crêem que o simples fato de citar um versículo torna seu ensino bíblico. Outros organizam seu ensino em três pontos: lêem o texto, se esquecem do texto e jamais regressam ao texto. Temos também aqueles que insistem em usar a Bíblia como o papagaio de realejo que, com um fundo musical apropriado, pega um texto aqui, outro acolá,  forçando conexões pouco respeitosas a tradição de exegese bíblica, ou ainda pior, pouco respeitosas ao Senhor que nos deu Sua Palavra.

Muito facilmente nos esquecemos que nosso proprio Senhor foi tentado por alguém que, citando a Escritura, buscou desviar Jesus da vontade do Pai. Se o diabo usou deste recurso com Jesus, a saber; de tentar conduzir o Senhor a desobediência por meio de sua maneira peculiar de interpretar a Escritura, porque não o faria conosco? A história nos mostra que ele não mudou em sua estratégia e os resultados disso podem ser vistos, infelizmente, de forma abundante. Uma das possíveis razões para esta séria situação é o descuido para com a história da Igreja. Nos consideramos filhos do movimento da Reforma Religiosa do século XVI, mas descansamos sobre uma compreensão superficial daquele momento e das questões fundamentais levantadas e defendidas, com a própria vida, pelos reformadores. Umas das batalhas daquele momento em relação à Bíblia foi pelo livre exame das Escrituras,  mas nos dias de hoje vemos que se está confundindo livre-exame com livre interpretação das Escrituras.  Aqui reside a origem do estado de confusão que vivemos como Igreja. Está na hora de recolocar os pingos nos is!


[1]GREIDANUS,S. Pregando Cristo a partir do Antigo Testamento, ed.Cultura Cristã, São Paulo, 2006

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