C. S. Lewis, Freud e suas transposições

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Em seu sermão Transposição, C. S. Lewis desenvolve o conceito de mesmo nome ao descrever a relação entre o que é material e o que é espiritual. Ele propõe esse argumento a partir da crítica de que os sentimentos religiosos são apenas projeções de sentimentos naturais e que em última análise Deus seria criação humana, ou seja, ao dizermos que cremos na existência de um plano espiritual estamos apenas usando elementos do nosso plano natural para justificar algo que não existe.

Lewis começa seu argumento a partir da seguinte questão: será que não temos um exemplo de dois planos — superior e inferior — que faça parte da vida das pessoas? O plano superior, neste momento, não diz respeito exatamente a um plano espiritual e sim a um plano mais rico e mais variado que está acima de um plano inferior, mais pobre em sua essência. A representação do plano superior a partir do plano inferior precisa utilizar um mesmo sinal com diferentes significados, pois esse plano inferior é menor em expressão. Por exemplo, ao traduzirmos uma frase de um idioma mais rico em vocabulário e sinais para uma língua mais pobre, será necessário usar uma mesma palavra no idioma inferior para representar significados diferentes no idioma superior. Lewis chama esse processo de transposição e diz que ele é igualmente plausível em outros casos, onde essa representação não é comprovada pela fé ou pela lógica, mas empiricamente.

A crítica que Lewis se propõe a questionar lembra o pensamento freudiano sobre a religião, o qual diz que Deus não nos criou à sua imagem e semelhança, mas que nós criamos Deus à imagem de nossos pais, e é interessante traçar aqui um paralelo e perceber que o pensamento de Freud e Lewis não se antagonizam tanto assim, até porque o caminho que os dois percorreram é semelhante. A diferença está no modo como cada um fez a sua transposição.

Sob o prisma da psicanálise, analisando seus sonhos e experiências durante a sua infância, Freud percebeu que nutria sentimentos ambivalentes em relação ao pai, por conta dos sentimentos que tinha por sua mãe e pelo fracasso do pai em ser mantenedor da família. Freud chega até a criar a expressão “complexo de Édipo”, uma análise do mito de Édipo que mata seu pai e casa-se com sua mãe chegando à conclusão de que Deus é a imagem idealizada de nossos pais, e que os sentimentos religiosos não são nada mais do que nossos próprios sentimentos e desejos reprimidos na infância — ou seja, aquilo que chamamos de Deus é o modo como expressamos nossos sentimentos naturais ignorando assim a existência de um plano superior espiritual.

Neste ponto é que o argumento de C. S. Lewis nos clareia o caminho ao lado do argumento de Freud.  Lewis nos dá exemplos de que eventualmente praticamos a transposição em nossas vidas como, por exemplo, ao representar um objeto tridimensional em um ambiente bidimensional. Essa transposição não está criando o plano tridimensional, pois ele já existe; está apenas traduzindo uma existência complexa para uma representação mais limitada de linguagem, e acredito que Freud usou desse artifício ao interpretar suas experiências na infância.

Será que a crítica de Freud não se aplica a ele mesmo? Ele diz que ao crer em um plano sobrenatural utilizam-se elementos naturais para demonstrar a existência de Deus. Não estaria ele usando também argumentos naturais para justificar a não existência de Deus? Aliás, basta um pouco de pesquisa para descobrir que a relação de Freud com a religião é cheia de transposições que ele fez de acontecimentos e sentimentos reprimidos de sua infância.

É interessante perceber que Freud e Lewis passaram por trajetórias semelhantes. Os dois tiveram certo afastamento emocional de seus pais na infância, influência religiosa e não religiosa, tornaram-se ateus (Lewis foi influenciado pelo pensamento de Freud, mas converteu-se ao cristianismo) e pontuaram experiências que colaboraram para que construíssem sua cosmovisão. A diferença é que Freud, na sua transposição, tentou definir completamente um plano superior a partir de um plano inferior, e com essa perda de dados chegou à conclusão de que não existe um plano espiritual. Lewis percebeu que as experiências da vida dele, no plano inferior, apontavam para a existência completa em um plano superior.

Por fim, qual é a importância de fazermos o contraponto — que parece não ser tão contra assim — entre essas duas transposições? Esse modo de ver o mundo segundo Freud está presente nos dias de hoje influenciando muitas pessoas, e é considerado a ortodoxia contemporânea. É neste momento, então, que a apologética que Lewis usou de forma brilhante pode servir para que o evangelho seja visto como ele realmente é.

 Nathan Queija Gonçalves
Integrante do Grupo de Estudo de Apologética & Teologia Natural,
coordenado pelo Prof. Jonas Madureira

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