Apologéticas x Apologetas

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Muito se tem discutido sobre a distinção do mundo espiritual do mundo natural, ou do mundo superior para o mundo inferior. Questões como se é pertinente o indivíduo separar as coisas do plano de Deus do plano “secular” – como trabalho, cultura, diversão; ou se a ciência e a razão podem transitar entre os dois mundos. Esse dualismo, quase sempre é interpretado de maneira equívoca e observado com pessimismo diante da enorme distância entre essas realidades. Porém, como fica o ser humano diante disso e qual deve ser a atitude dele para interagir com os dois planos, já que se deve ser um homem completo e integral?

Em seu sermão Transposição[1], C.S.Lewis apresenta o problema da relação entre o natural e o espiritual que também pode ser representado pelos planos mais elevados e mais baixos da vida natural. Para Lewis, a transposição acontece quando a sensação adquirida na experiência transcende a emoção, pois o campo da emoção é superior ao da sensação em riqueza, variação e sutileza. Um exemplo de transposição acontece quando desenha-se algo que tenha características tridimensionais em uma folha de papel (bidimensional). Você conhece o tamanho, forma e sensação que esse objeto possui, porém na folha de papel ou na tela de um quadro, mesmo não possuindo a dimensão semelhante, você pode sentir as mesmas sensações. Isso significa que somente é possível conhecer o plano inferior quando se compreende o plano superior, ou seja, as coisas espirituais são discernidas espiritualmente. Porém, Lewis enfatiza que a transposição não acontece apenas no campo das sensações, ela também está presente na relação entre mente e corpo – no intelecto, na emoção e na imaginação. Ainda, quando a realidade inferior consegue ser elevada até a realidade superior, ela torna-se parte dela. Por exemplo, a sensação de alegria que uma experiência pode oferecer, acaba se transformando na própria alegria.

Já o pensador cristão Francis Schaeffer em sua obra “A Morte da Razão”, fala da divisão: Graça, no nível superior (Deus, o céu e as coisas celestes, a alma humana, a unidade) versus Natureza, no nível inferior (a Criação, a Terra e as coisas terrenas, o corpo humano, a diversidade). Ao longo da obra, Schaeffer mostra como pintores, cientistas e escritores tentaram separar ainda mais esses dois níveis e até mesmo tornar o nível inferior mais importante que o nível superior. Esses movimentos foram refletidos na sociedade e nas questões últimas que os indivíduos levantavam. Citando Kierkegaard, Schaeffer concluí que só é possível acessar o plano superior com o salto da fé, pois a fé não é racional e dá otimismo ao ser humano que por si só vive no pessimismo, fechando assim a dicotomia do homem moderno.

Resumindo, a apologética de Lewis lança mão da Teologia Natural, das experiências, das sensações, da beleza e do prazer, dessa maneira tornando mais leve e compreensível àqueles que não conseguem discernir espiritualmente. A transposição das realidades, para Lewis, é algo que gera alegria estética, sendo satisfatória e perfeita. Já a apologética de Schaeffer visa derrubar a cosmovisão secular confrontando-a com a cosmovisão Cristã. Citando Schaeffer, “Deus fez o homem todo e está interessado no homem todo, e o resultado é uma unidade.”[2]

Concluindo, não há pessimismo em nenhuma das apologéticas, ou até mesmo a mais correta perante a outra. Percebe-se apologétas distintas apresentando suas ideias para públicos diferentes. Porém, ambos têm a visão de reconciliação, progresso e remissão da cultura. Além disso, ambos defendem a integração entre os dois mundos por meio da experiência de fé. Assim como se espera que Jesus Cristo irá redimir todas as coisas em seu retorno, Schaeffer e Lewis também esperavam a realização desse sonho.

Marina Narciso & Hugo Torres
Integrantes do Grupo de Estudo de Apologética e Teologia Natural,
coordenado pelo Prof. Jonas Madureira

[1] Lewis, C.S, O Peso de Glória – São Paulo – 1º ed. – São Paulo – Editora Vida Nova, 2008 – pág. 91

[2] Shaeffer, Francis A., A Morte da Razão – 2º ed.- São Paulo: ABU Editora, 2014 – pág. 35

 

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