A glória e a escória

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Lawrence Krauss, em sua palestra Um Universo a partir do Nada[1], vem nos dizer que a coisa mais poética que sabe sobre física é que tudo, inclusive a humanidade, é feita do pó das estrelas. Parece escapar-lhe que a conclusão lógica de suas ideias nos diz que o lixão mais próximo também tem a mesma propriedade. Este é, na verdade, o problema de todos os sistemas materialistas: se tudo não passa de partículas, então algo como o ser humano não tem um valor real, não mais do que tem o chão que ele pisa. Na verdade, é ingênuo falar de um padrão de valores, pois isso é apenas algo inventado pelos homens, uma ideia aceita sem necessidade.

E é nesse caso, como em tantos outros, que a concepção cristã do universo vem recuperar algo que só podemos chamar de a sanidade do mundo. Pois o caminho para a santidade é também o caminho para a sanidade, o bem-estar da alma só pode levar ao bem-estar psicológico, e entender o significado do universo tem a consequência de levar a entender a nós mesmos. O cristianismo, desde suas origens, luta para salvar a alma do homem; mas nos nossos dias vemos que ele luta também para salvar o seu corpo. Pois o materialismo resolve o problema da salvação da alma dizendo que não há uma alma para ser salva, e que, sendo o corpo a única realidade, e sendo feitos todos do mesmo material, são todos de igual valor, que é nenhum. É contra esse abismo que o antigo relato se levanta para dizer que o homem não é só pó da terra, mas também imagem de Deus, e que portanto seu valor reside não apenas naquilo de que é feito, mas sobre uma coisa que ele é.

C. S. Lewis chama-nos a atenção, ainda, em O peso de glória, para atentarmos não apenas ao que o homem é hoje, mas ao que ele será no futuro. Pede para que sabiamente lembremos que príncipes se tornam reis. É preciso considerar que a imagem de Deus está caída, e que alguns serão postos em pé, enquanto outros nunca serão levantados. Se não sentimos o peso disso, é porque o materialismo nos é real, e já tem levado a nossa alma. Pois não existem homens comuns, e todos temos destinos eternos. Céu e Terra hão de passar, mas os homens jamais passarão.

Instintivamente o homem sempre soube dessas coisas, sempre soube que ele era um animal, mas também algo mais que isso. Sabia que devia respeitar os cavalos, mas que não era um crime montar neles. Sabia que podia governar o mundo, apesar de não conseguir governar a si próprio. Podia perceber-se como “a glória e a escória do universo”[2]. E é essa a visão que os materialistas negam, são esses princípios que eles querem por abaixo. E é assim que em sua luta contra homens eternos acabam por destruir a vida dos homens mortais.

Enéas A. Nogueira Jr.
Integrante do Grupo de Estudo de Apologética & Teologia Natural,
coordenado pelo Prof. Jonas Madureira

 

[1]     KRAUSS, L. M. Um universo que veio do nada. São Paulo: Paz e Terra, 2013.

[2]     PASCAL, B. Pensamentos. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1988.

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